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sexta-feira, 2 de maio de 2008

Reescrevendo a história
José Carlos Ruy -- Retratos do Brasil, Ed. Política, 1984, Vol. II, p. 381-382

No final do Regime Militar se divisavam sinais claros de que a forma de contar a história do País mudava para uma perspectiva mais ampla e democrática.

Contar a história é uma atividade que reflete as convicções políticas e sociais das classes e grupos sociais aos quais o historiador não só traduz as idéias daqueles que dominam, mas também deixa transparecer a visão do mundo dos grupos emergentes, que lutam contra a hegemonia política, econômica, social e ideológica das classes que estão no poder.

Cada classe busca no passado os fatos que compõem o mosaico de sua visão de mundo - podemos dizer esquematicamente. Procura seus heróis e valoriza os momentos mais criativos de seus antepassados de classe, momento em que - agindo em defesa de seus próprios objetivos - eles puderam representar a vontade geral da sociedade.

Por isso a história é uma ciência que está em revisão constante. A medida que o processo democrático se aprofunda, a história tende a ser contada do ponto de vista de camadas mais amplas da população. "É o desenvolvimento da consciência social e política do povo que exige a revisão de nossa história", reconheceu o historiador José Honorório Rodrigues, numa conferência de 1965.

A historiografia brasileira oferece exemplos disso. A obra do historiador do século passado Francisco Adolfo Varnhagen é um deles. Segundo José Honorio Rodrigues Varnhagen foi o principal responsável "pela criação da história oficial, que sempre defende a razão do Estado e com ela se identifica". Apologista da dinastia dos Bragança, protegido de Pedro II, Varnhagen inaugurou também a versão de que nossa Independência teria sido pacífica, a despeito das lutas na Bahia e no Maranhão, que envolveram um número de soldados maior do que o mobilizado pela campanha de Simón Bolivar ! Caracteristicamente, Varnhagen valorizou em excesso a luta dos colonos pernambucanos, liderados pelos grandes senhores de terras e de escravos, contra a invasão holandesa, no século 17.

O resgate da memória de Tiradentes e sua ascensão ao panteão dos heróis nacionais é outro exemplo de como as classes contam a história. Durante o Império, Tirantes foi relegado a um segundo plano, e Varnhagen - na primeira edição de sua 'História Geral do Brasil', de 1857 - chamou-o de insignificante e indiscreto, a quem a morte na forca atribuiu méritos que não tinha. Afinal, Varnhagen era o historiador da classe e da dinastia que condenara Tiradentes, classe à qual também o traidor Joaquim Silvério dos Reis se ligou em 1791, desposando uma das filhas do oligarca Luís Alves de Freitas Belo. Outra filha desse personagem se casou, depois, com Francisco de Lima e Silva, um dos chefes militares mais eminentes do Primeiro Reinado, regente do Império durante a menoridade de Pedro II e pai de Luiz Alves de Lima e Silva, o duque de Caxias.

Dessa forma, o traidor da Inconfidência Mineira foi tio por afinidade, do duque de Caxias - o patrono do Exército -, o que denota ligações familiares e de classe que realmente não permitiam a valorização da atividade conspiratória do alferes.

Pela atuação do movimento republicano e posterior advento da República, o papel de Tiradentes pode ser reavaliado. A primeira homenagem oficial a ele prestada ocorreu em Minas Gerais, em 1867, quando o presidente da Província e futuro fundador do Partido Republicano, Joaquim Saldanha Marinho, mandou construir um monumento a Tiradentes em Ouro Preto. Após a queda da Monarquia, em 1889, Tiradentes foi transformado em herói nacional.

Com a emergência das classes populares na vida política nacional - intensa depois da Segunda Grande Guerra -, outros heróis de nossa história de origem plebéia tiveram sua memória recuperada. Zumi, líder do Quilombo dos Palmares, e Antônio Conselheiro, dirigente do arraial de Canudos, por exemplo, passaram a ser considerados sob um ponto de vista mais positivo. O primeiro era até então tido como um bandido cujas atividades mereceriam antes fazer parte da crônica policial do que propriamente da história, e Conselheiro foi descrito como um louco místico liderando jagunços fanatizados.

Quando a causa pela qual morreram pode ser identificada como a causa de enormes parcelas do Povo, ambos passaram a ser reivindicados como heróis.

Esses exemplos pretendem mostrar que o reconhecimento dos heróis pelos que contam a história está intimamente relacionado com a atividade daqueles que fazem a história. Assim, durante o Império, um setor da oligarquia, originário do Nordeste, dominava a cena nacional, e seus heróis foram os chamados restauradores pernambucanos, que lutaram contra os invasores holandeses - uma luta que, no entanto, destinava-se a restabelecer a soberania portuguesa sobre o território ocupado.

Com a República, outro setor da oligarquia, localizado principalmente em Minas Gerais e São Paulo, ascende. Traz consigo novos heróis. Tiradentes, o maior deles, personagem central do episódio mais marcante em que esse setor liberal oligárquico esteve envolvido - a Inconfidência Mineira -, é transformado em herói nacional.

Uma hipótese que se pode formular aqui é de que a revisão da história ocorre nos momentos em torno da ruptura insitucional ou social, como no final da Monarquia e do Estado Novo. São períodos em que os problemas mais gerais são amplamente debatidos, e soluções para as questões mais candentes são propostas pelas classes e pelos grupos sociais.

O reexame da história é uma tentativa de detectar esses temas no passado e de reavaliar a solução a eles dada.

Após 30, surgem importantes obras de análise do País

Os anos que se seguiram à revolução de 1930, por exemplo, forma particularmente notáveis: nessa época aparecem obras importantes como as de Gilerto freyre, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Roberto Simonsen, Azevedo Amaral, entre outros, consolidando algumas das linhas de interpretação histórica ainda dominantes entre os pensadores nacionais. A rica atividade intelectual do período que vai do fim do Estado Novo até pouco depois do golpe militar de 1964 sugere também que a vigência de liberdades democráticas, mesmo que limitadas, propicia momentos criadores para a historiografia.

No início dos anos 80, para algumas correntes intelectuais se tornava mais nítida uma tendência à divisão da história do Brasil baseada não nos grandes eventos políticos, mas nas alternâncias dos modos de produção e nos tipos de relação de trabalho. Um exemplo é a publicação, em 1978, do já clássico 'Escravismo Colonial', de Jacob Gorender.

Com a perspectiva do fim próximo do Regime Militar, alguns sinais muito claros mostravam que mudavam também as atitudes em relação aos heróis homenageados pelo cambaleante Regime Militar. Um caso expressivo: o policial americano e instrutor de polícias políticas latino-americanas Dan Mitrione, morto pelos guerrilheiros tupamaros no Uruguai, foi homenageado, durante o governo Médici, com a atribuição de seu nome a uma rua de Belo Horizonte.

Em 1983, essa homenagem foi cancelada e a rua rebatizada com o nome de José Carlos da Matta Machado - estudante e ex-vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), assassinado em 1973 pela polícia política pernambucana, durante o governo do mesmo general Médici -, acontecimento carregado de simbologia.

Outro caso: na periferia pobre de São Paulo, durante os saques de abril de 1983, populares arrancaram a placa de uma rua com o nome do general Euclides Figueiredo, pai do último presidente militar, João Figueiredo - o chefe de um regime agonizante e repudiado pelo povo.

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quinta-feira, 11 de outubro de 2007

O relato de fatos e a busca da verdade

A idéia deste trabalho está sintetizada em uma propaganda do Jornal Folha de São Paulo. Propaganda que foi considerada a melhor do séc. XX:

Clique no link para ver a propaganda: http://br.youtube.com/watch?v=FLda5jlX59c

Antes de iniciar esta reflexão é preciso ponderar que este trabalho não constitui um estudo científico aprofundado ou uma monografia científica, mas sim uma reflexão breve e interdisciplinar de alguns pontos do tema que envolve o relato de fatos e a busca da verdade ou construção de certezas. Portanto, este trabalho não resultou de uma pesquisa exaustiva ou de leituras extensas, mas sim da junção entre a teoria e os fatos do dia-a-dia. Afinal, o grande desafio da Universidade é permitir ao aluno a transposição do conhecimento de sala de aula (teoria) para a interpretação, compreensão e solução dos problemas do dia-a-dia.

Neste sentido, uma das questões polêmicas e conflitantes das Ciências Humanas, principalmente da História e do Direito, é a questão da veracidade dos relatos de fatos, da relatividade da verdade e a interferência do interesse do observador na descrição e valoração dos acontecimentos, assim como a fixação, interpretação e transmissão destes dados para a posteridade, ou seja, a formação de uma certeza histórica/jurídica/etc é afetada pela visão do narrador e pelo método de construção da suposta verdade que foi utilizado pelo intérprete.

Certamente, esta questão não é mera divagação teórica, mas tem conseqüências práticas muito sérias, principalmente quando o relato é a única fonte de conhecimento acerca de algo. Por exemplo, em algumas celeumas jurídicas as testemunhas são as únicas fontes de informação do juiz que, a partir dos fatos narrados por estas, decidirá o direito e a vida de alguém. Outro exemplo são as disciplinas, como a História por exemplo, que assentam seus fundamentos em conhecimentos obtidos, na maioria das vezes, de narrações de fatos e acontecimentos, sejam escritos ou falados, que sobreviveram à passagem do tempo. Resumindo, o relato e os problemas que advêm de tê-lo como fonte de conhecimento são relevantes para diversas áreas científicas e instituições.

Esta problemática e suas implicâncias podem ser mais bem visualizadas e compreendidas pelos seguintes exemplos explicativos: 1) história contada no filme Rashomon (1950) de Akira Kurosawa, 2) discussão realizada no texto “A retórica do método” do Professor Francisco Murari Pires (1998, p. 9-16), 3) comédia das CPIs (Comissão Parlamentar de Inquérito) na política brasileira e 4) instituição da “VERSÃO OFICIAL” existente nos regimes ditatoriais.

O filme Rashomon (1950) de Akira Kurosawa narra a história de um crime, ou dois crimes, porém os fatos são contados por quatro pessoas que estiveram diretamente envolvidos nos fatos ou que presenciaram os acontecimentos: o suposto bandido, o marido (ou morto), a mulher do morto (viúva, portanto) e uma testemunha que era lenhador.

O acontecimento é a violação de uma mulher perpetrada por um bandido e a conseqüente morte do marido desta. Contudo, não se sabe se a vítima foi estuprada ou se consentiu com o ato. Se o marido foi assassinado ou se suicidou por causa da desonra. E se o suposto bandido realmente cometeu algum crime, pois se a mulher consentiu não houve estupro e se o marido suicidou não houve assassinato. Assim, o fato é reconstituído quatro vezes, de acordo com o ponto de vista e com o interesse de quem o estava narrando.

Neste contexto, o ponto essencial do filme Rashomon, ou seja, o que o diretor Akira Kurosawa tentou mostrar, é a relatividade da verdade e a inútil tentativa do ser humano em construir certezas e verdades a partir de subjetividades e interesses.

Santos (2005), que escreveu um artigo analisando o filme Rashomon, afirma que:

"Naturalmente, é preciso explicar que gênero de justificação permite assumir relato I, relato II, relato III, ou relato IV, como verdadeiro. Como se pode justificar tal coisa, isto é a crença em um desses relatos e não em qualquer um dos outros? Estou em crer que não se pode e, aliás, é essa a conclusão imediata ou intuitiva que vem à idéia. Primeiro, nada nos garante que não haja um relato V, diferente dos quatro relatos conhecidos que seja efetivamente o relato verdadeiro, ou seja, nada nos garante que todos os quatro relatos não sejam falsos (não é diretamente um problema de justificação); segundo, não há forma de garantir, por meio justificado e racional, um relato como verdadeiro em detrimento de qualquer um dos outros, uma vez que são os quatro de igual valor, no que diz respeito ao critério epistêmico usado na tentativa de decidir qual o melhor relato ou qual o mais verossímil deles; por último, e como conseqüência, não é possível saber exatamente o que se passou (como morreu o marido, qual o papel da
mulher em tudo isso e o que terá feito realmente o bandido)."

Este mesmo autor assinala ainda que:

"Acreditar em algo relatado é um simples exercício de confiança (ou fé) no locutor. Claro, podemos estar mais inclinados a acreditar no relato do morto do que no relato do bandido, se tomarmos, por princípio, que os bandidos mentem, mas isso de nada nos assegura, quando, em termos de conteúdo, os quatro relatos são igualmente verossímeis. Aliás, usar isso como justificação seria arbitrário. A única abordagem que resta é uma abordagem céptica (localizada, mas radical!): ‘(não é possível) não há conhecimento (somente) por meio de relato'. (Idem)"

No segundo exemplo, ou seja, no texto “A retórica do Método”, o Professor Murari (1998, p. 9-16) apresenta e analisa as dificuldades enfrentadas pelo historiador Tucídides na reconstrução de fatos da Guerra dos Peloponésios contra os Atenienses.

Relata o Professor Murari que uma das exigências de Tucídides, para ouvir os informantes, era que tivessem presenciado os acontecimentos (condição informativa). Contudo, esta exigência inseriu a parcialidade e o interesse das testemunhas na reconstituição promovida pelo historiador, isto porque as pessoas que estiveram presentes nos acontecimentos haviam optado por um dos lados da guerra, assim, não diziam as mesmas coisas sobre os mesmos fatos, ou seja, “(...) sobre os mesmos fatos, distintos observadores dão informes divergentes.” (Idem).

Além disso, o texto citado conta que Tucídides declara não poder precisar a plena reconstituição do acontecimento narrado, ou porque provido apenas por dados suspeitos ou mesmo porque deles carente.

Outro exemplo claro da subjetividade dos relatos e da relatividade da verdade são as denúncias, as distorções, as manipulações, os Habeas Corpus preventivos (visando proteger os mentirosos) e os absurdos que aparecem nas chamadas CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito) da política brasileira. Nestas Comissões, um mesmo fato é apresentado com dezenas de versões. Versões que são criadas de acordo com o interesse, a conveniência e o índice de picaretagem dos envolvidos. Qual versão é a verdadeira ? Quem está dizendo a verdade ? Quem é mais tendencioso e parcial: as testemunhas ou os intérpretes (os Parlamentares) ? A História dirá a verdade ? Como ?

E, para descontrair, o que Tucídides diria se tivesse diante de uma CPI no Congresso Brasileiro ? Talvez dissesse a mesma coisa que afirmou quando detectou a parcialidade de suas testemunhas que presenciaram a Guerra dos Peloponésios contra os Atenienses, ou seja, nas palavras do Professor Murari (1998, p. 9-16);

"(...) as pessoas que presenciaram os acontecimentos, os presenciaram porque participavam de suas ações. E eram partícipes porque engajados por algum dos lados diversamente envolvidos nas disputas do conflito beligerante. Então, ao ensejo determinante dessa sua participação, viram os fatos (pre)dispostos por suas inclinações pessoais e, assim, consoante à ótica contaminada de seu engajamento. De modo que sua percepção dos fatos, e seu condizente relato, comprometem-se por essa parcialidade de seu olhar, não apenas e tanto porque se tratem de subjetividades diversas, mas, sobretudo, porque, devido a engajamentos antagônicos, respeitam a enfoques inerentemente conflitantes de constatação informativa dos acontecimentos presenciados."

Outro ponto importante neste tema é a possibilidade de manipulação política das informações e dos fatos em alguns regimes políticos, ou seja, em alguns países publica-se e divulga-se apenas aquilo que possui o carimbo: “VERSÃO OFICIAL”. A versão do Estado, o relato estatal dos acontecimentos, impera como verdade absoluta, incontestável e inquestionável, silenciando as vozes de todas as demais fontes de informação. Isto ocorre principalmente nos regimes de exceção (ditaduras), onde predomina a razão de Estado e restrições às liberdades de expressão e informação. São exemplos disso: a China, a Coréia do Norte, Cuba, Irã, etc.

Nestes regimes a verdade pertence ao Estado que atua fortemente, inclusive prendendo e eliminando pessoas, para controlar a circulação da informação e do conhecimento, fazendo prevalecer a versão ou o silêncio oficial sobre os acontecimentos. Assim, o Estado se transforma em um narrador de fatos e acontecimentos. Certamente, as versões estatais carregam consigo o interesse e a parcialidade dos governantes e a chamada “razão de Estado” deve ser lida como “razão do governante do Estado”.

Contudo, de acordo com Sant’anna (1989. p. 196-8) ninguém tem poder suficiente para calar a História, pois:

"História é o anti-silêncio. É o ruído emergente das lutas, angústias, sonhos, frustrações. Para o pesquisador, o silêncio da história oficial é um silêncio ensurdecedor. Quando penetra nos arquivos da consciência nacional, os dados e os feitos berram, clamam, gritam, sangram pelas prateleiras. Engana-se, portanto, quem julga que os arquivos são lugares apenas de poeira e mofo. Ali está pulsando algo. Como num vulcão aparentemente adormecido, ali algo quer emergir. E emerge. Cedo ou tarde. Não se destrói totalmente qualquer documentação. Sempre vai sobrar um herege que não foi queimado, um judeu que escapou ao campo de concentração, um dissidente que sobreviveu aos trabalhos forçados na Sibéria. De nada adiantou aquele imperador chinês ter queimado todos os livros e ter decretado que a história começasse com ele. A história começa com cada um de nós, apesar dos reis e das inquisições."

É importante assinalar também que métodos de controle da informação e das notícias também existem em regimes democráticos. Certamente, são mais dissimulados e camuflados, atuando mais pelo poder econômico do que pela violência da razão de Estado. Assim, em uma democracia, o governo consegue cooptar a mídia, estabelecendo um discurso favorável aos seus interesses, por meio da distribuição de verbas publicitárias por exemplo, ou seja, as milionárias campanhas publicitárias do Estado são realizadas nas mídias que apóiam e defendem o governo e seus aliados.

Enfim, tanto Tucídides quanto Akira Kurosawa enfrentaram o mesmo problema: como formar uma certeza histórica/jurídica a partir de fragmentos de verdades apresentadas em descrições de fatos e acontecimentos afetados pelo interesse e pela subjetividade do narrador ? Mas, além disso, outra questão que aflorou foi: como afastar da fixação e interpretação dos fatos a subjetividade e o interesse do intérprete ou do transmissor da informação ?

Estas questões, conforme se vislumbra nos exemplos citados, são de extrema importância, principalmente na época atual que é marcada e determinada pelo conhecimento, seja politicamente, socialmente ou economicamente, e pelas redes de telecomunicação e informação. Fatos e boatos (relatos de acontecimentos verídicos ou não) são construídos, distorcidos, manipulados e disseminados em questões de segundos para todo o planeta, podendo salvar ou destruir, trazer a paz ou levar a guerra. Em outras palavras, na atualidade o conhecimento e a informação transformaram-se em elementos do poder e de poder.

Conseqüentemente surge a questão inevitável: como resolver os problemas apresentados ? Como descobrir a verdade no meio de tantas mentiras ?

Talvez a saída esteja no método utilizado por Akira Kurosawa, no filme Rashomon, e por Tucídides, na reconstituição da Guerra dos Peloponésios, ou seja, o caminho é confrontar as versões, realizar um contraditório entre os relatos, buscando alcançar uma síntese. Isso vale tanto para o historiador, quanto para o juiz ou para o cidadão comum diante das enxurrada de informações do dia-a-dia.

Inclusive o método do contraditório é um procedimento obrigatório dos processos judiciais, ou seja, é utilizado amplamente no Direito e visa determinar (com a maior aproximação possível) a verdade dos fatos. É importante lembrar que a área jurídica é especializada na solução de conflitos entre relatos e versões diferentes de um mesmo fato e cabe ao juiz, a partir das provas apresentadas no processo por cada uma das partes, dizer quem tem e quem não tem razão, ou seja, qual é o relato verdadeiro. Certamente, o método do contraditório utilizado pelo juiz não é infalível e, por isto, existem os recursos e as instâncias de revisão das sentenças judiciais.

Enfim, na atualidade é imprescindível conhecer quem conta e, principalmente, por que está contando, ou seja, qual é o interesse do narrador na publicação dos fatos. Isso permite a delimitação da subjetividade do narrador na descrição dos fatos, possibilitando descartar as referências que constituem seu interesse e que foram manipulados a seu favor. Contudo, fazer isto não é trivial e nem fácil, pois exige um conhecimento minucioso de cada um dos envolvidos.

Contudo, é primordial a confrontação dos relatos, ou seja, o estabelecimento de um contraditório entre as versões e as fontes apresentadas. Por exemplo, o cidadão comum pode fazer isto lendo mais de um jornal, vendo mais de um noticiário, buscando mais de uma fonte de informação, pois do confronto entre as várias versões de notícias e informação é possível estabelecer uma síntese que tem grandes chances de ser verdadeira. Certamente, não se descarta a probabilidade da síntese ser falsa, pois existe a possibilidade de todos os relatos serem falsos.

Além disso, os cidadãos devem desconfiar os relatos que vêm carimbados com título “VERSÃO OFICIAL”, pois esta versão constitui o relato dos fatos a partir da perspectiva do governante do Estado. Logo, não possui nada de excepcional ou extraordinário e nem pode ser aceita como verdade absoluta e inquestionável. Toda versão traz embutida sua parcialidade e seu interesse, inclusive o relato estatal. Assim, também deve ser confrontada com outras versões e descartada se for mentirosa.

Portanto, a questão dos relatos e a busca da verdade, tentativa de construção de certezas a partir de subjetividade e interesses, constituem uma problemática histórica antiga que foi, inclusive, enfrentada por Tucídides na descrição da Guerra dos Peloponésios contra os Atenienses, mas que continua aparecendo e se disseminando na atualidade, principalmente na política. Contudo, a ferramenta do contraditório, confrontação das versões e dos relatos, permite a formação de uma síntese e a aproximação da verdade, ou seja, possibilita o afastamento de subjetividades e incertezas e a determinação aproximada da verdade dos fatos. Isto pode ser aplicado tanto nas áreas científicas, quanto nas instituições e no dia-a-dia dos cidadãos.

BIBLIOGRAFIA UTILIZADA

PIRES, Francisco Murari. A Retórica do método: (Tucídides I.22 e II.35). Internet: http://www.fflch.usp.br/dh/heros/mithistoria/ensaios/retoricametodo.html . Acesso em: junho/2006. Revista de História. n. 138. 1998. p. 9-16.

SANTOS, Diogo. Relatos e Conhecimento: Rashomon (1950), de Akira Kurosawa. Internet:< http://cinefilosofia.com.sapo.pt/artigos/conteudo/Rashomon.htm >. Acesso em: junho/2006.

SANT’ANNA, Affonso, R. de. A raiz quadrada do absurdo. Internet: < http://xoomer.alice.it/direitousp/historia.htm >. Acesso em: junho/2006. Rio de Janeiro, Rocco, 1989. p. 196-8.

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quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Pequenas Histórias do Leonildo


Leonildo Correa -- 18/09/2007 -- No Projeto OCW-USP disseram que eu não podia usar o termo "USP". Alegaram marca, propriedade intelectual, etc. As velhas desculpas capitalistas para arranjar dinheiro fácil e expropriar o patrimônio público.

Depois que falaram um monte eu disse, está bem, vou mudar. Peguei e escrevi Projeto OCW-USP. O indivíuo olhou e disse: "Mas não mudou nada." Eu retruquei: "Mudou sim". Ele repetiu: "Eu continuo lendo Universidade de São Paulo". Eu disse, mas está lendo errado. Está escrito Universidade de São Pedro.

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Eu tenho sérios problemas psiquiátricos. Contudo, consigo arranjar namoradas que tem problemas mais sérios do que os meus. Já namorei uma garota lindíssima. Tinha até sido modelo da tal Agência Mega. Mas era louca. Linda, porém louca. Era tão louca que as rações que comprava para o gato acabava rapidamente. Ela comia a ração junto com o bichinho. E não se enganem, era aluna da USP, mais especificamente do Largo São Francisco. Hoje é advogada formada. Será que ela continua comendo ração de gato ?

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Eu fui criado na roça. Morei no sítio, com minha família. Meus pais ainda moram lá. Fica no Município de Ibaiti, interior do Paraná. De vez em quando eu miro o lugar onde nasci e morei pelo Google Earth. Mas, o que eu quero contar não é isso. Na quinta série eu descobri as enciclopédia e lia todas as que via pela frente. Aí decidi a profissão que queria seguir. Então, na sala de aula vinha a Professora perguntando: "Joãozinho o que você quer ser".

O idiotinha respondinha: "bombeiro". E você Mariazinha ?, Perguntava a Professora. "Médica", respondia a aluna. "E você, Leonildo ?" E eu respondia entusiasmado: "Físico nuclear". Naquela época eu queria ser Físico Nuclear para aprender a fazer e desarmar bomba atômica. Decidi isso na quinta série. E só desisti da idéia em 1999, no terceiro ano do Curso de Física Computacional da USP de São Carlos.

Mas um dia, quando não tiver nada para fazer e já tiver mudado o mundo, vou retomar o Curso de Física. Quero estudar spintronics, nanotecnologia e computação quântica. Contudo, tenho um problema sério: gosto de Física, mas odeio matemática. A minha média em São Carlos ficava em torno de 3,00 e 3,50.

Além disso, eu penso que a Física atual e a Matemática atual não descrevem a natureza. A natureza é simples e singela, ou seja, a natureza jamais usaria equações diferenciais de grau não sei quanto para construir e elaborar os seus projetos. Acho que os Físicos estão complicando ou tornando tudo complexo e incompreensível. Deveriam usar a Navalha de Occam...

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Em 2002 cheguei na Biblioteca da Faculdade de Direito para devolver três livros. O indivíduo olhou para a minha cara e disse: "Você não está com esses livros ?" Retruquei: "Como assim não estou com os livros ? Aqui estão os livros e aqui está a carteirinha..."E, apesar da minha insistência, o funcionário não recebeu os livros. Logo depois disso viajei para a Colômbia e passei todo o ano de 2003 fora do Brasil. Em 2005, voltei à biblioteca e devolvi os livros.

Certamente, repeti toda a história, mas nada adiantou... Fui impedido de emprestar e retirar livros da biblioteca por mais de 7 anos. "Aos inimigos, os rigores da lei", cochichavam pelos cantos. Certamente, esperavam, com isso, prejudicar-me o máximo possível, pois sabiam que eu não tinha dinheiro para comprar os caríssimos livros de Direito.

Contudo, quando o diabo me ataca, Deus abre outras portas. Retomei um costume antigo que eu tinha no ginásio, qual seja: ir na biblioteca e resumir ou copiar as partes do livro a mão para o caderno. Fiquei surpreso, pois com isso, exatamente como ocorria no ginásio, a minha aprendizagem e retenção de informações cresceu exponencialmente. Ao invés de me prejudicarem, acabaram me ajudando a recuperar um costume esquecido e a subir ainda mais alto...

Certamente, anotei os nomes dos indivíduos em minha agenda mental. Um dia irei julgá-los por isso...

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